sábado, 26 de dezembro de 2015

Nota sobre o feminismo

Nota sobre o Feminismo

Eu busco proximidade com o feminismo, porque acredito no machismo como um mal não necessário contra o qual procuro lutar todos os dias. Tenho machismos dentro de mim. Quando percebo que os liberto, procuro corrigi-los e fazer uma nota mental para não voltar a cometê-los.

Lembro que, em meu nono ano do ensino fundamental, o brilhante e muito querido professor de História que tinha na época propôs à turma que fizéssemos grupos e apresentássemos, sem fins lucrativos (não valia nota), pequenos seminários sobre os assuntos ministrados em sala. As temáticas (feminismo, movimento negro, música, etc) eram tão bacanas que a proposta teve plena adesão da turma. Meu grupo ficou com o trabalho sobre feminismo. Senti-me muito contente naquela apresentação. Como se eu realmente tivesse algo importante e necessário a dizer para meus colegas de 14-15 anos.

A partir daí, tornou-se uma curiosidade e, posteriormente, uma causa.

Não sou uma enciclopédia sobre o assunto. Não tenho todas as leituras e conhecimentos que gostaria, mas, ainda sim, quando vejo coisas absurdas sendo postas como argumento, busco mais e mais formas de desconstruir o que foi dito e de aprender um pouco mais.

O feminismo, infelizmente, como outros assuntos grandiosos, tem sido mal falado, mal interpretado e mal utilizado. As redes sociais e, em especial, o facebook são a terra fértil dos moralismos baratos, das ideias mal defendidas, dos compartilhamentos vazios, da hipocrisia disseminada e das redundâncias chatas. Poucas discussões proveitosas e muito bate-boca mal formulado e sem um pingo de educação e respeito entre as partes. As pessoas gostam disso. Parecem se alimentar de discórdia. Não tenho muita paciência.
Os posts das páginas feministas parecem estar repetitivos e mais superficiais, mas o ruim é que a militância feminista parece ter se apegado a alguns símbolos que já se saturaram. E não tem saído muito disso. Tem sido, talvez por isso, mal interpretado (o movimento). Não só por isso. Também porque as pessoas insistem em fazer beicinho, cruzar os braços, bater o pé e dizer: eu não gosto das feministas porque: "todas elas odeiam homens"; "são contra a família"; "querem mandar no que as mulheres fazem de suas vidas". Não. Primeiramente: se você me conhece, gosta de mim, me respeita um mínimo que seja, nunca use, em uma conversa - por mais casual -, o termo "feminazi" como uma verdade. Alguns amigos que sabem do meu apego à causa usam o termo pra tirar onda com minha cara. Isso eu aceito. Agora atrelar todo o feminismo a esse termo tosco que alguém um dia inventou - "feminazismo" - como se feminista gostasse de jogar os outros em campo de concentração e deixar o gás agir - como um fato, por favor não. Reclamar, debater, questionar, achar uma piadinha ou comentário ruins não é errado. Pode parecer chato, mas pode ser o necessário.

O feminismo, eu o interpreto, é uma alternativa. É a possibilidade. Ele se adequa ao tempo histórico. Um dia ele serviu para que as mulheres pudessem ser educadas, deixar suas vidas domésticas e ocupar postos de trabalhos com remuneração e direitos trabalhistas como faziam os homens desde que o mundo é mundo (aliás, esses direitos demoraram bastante a serem conquistados). Um dia serviu para que nós pudéssemos votar, sermos votadas e termos uma voz representativa dentro da esfera pública de um Estado. Um dia serviu para que as mulheres parassem de ser usadas como moeda de troca entre seus pais e aspirantes a maridos. Um dia serviu para que nossa liberdade sexual pudesse começar a ser posta em voga (e esse caminho a percorrer é, ainda, longo e cheeeeeeio de tabus).

 Hoje para que serve o feminismo? Serve para a busca de equiparação salarial. Serve pela luta contra a persistente, factual, horrenda e hostilizada violência sexual e moral. Serve para evitar que "x" ou "y" parâmetros comportamentais sejam atrelados e atados às mulheres de tal modo que nem elas próprias se libertem e nem os homens que estejam próximos desses parâmetros possam se sentir livres para tanto. Serve pra que essa ideia de sexo frágil deixe de persistir. Serve para que nenhuma mulher seja obrigada a crescer ouvindo o quão prendada ela tem que ser pra conquistar o "homem perfeito" do qual deve ser digna. Serve pra que a mulher (e, principalmente, os homens) enxergue(m) que (ela) é plenamente capaz de tomar conta de si. Serve pra que nenhuma mulher seja obrigada a temer o assédio nos lugares em que frequenta (ambiente de trabalho, festas e demais eventos, talvez até o próprio círculo de "amigos"). Serve pra que nenhuma mulher que seja mãe solteira seja mal vista socialmente e tenha sua condição ridicularizada ou tratada como alvo de comentários maldosos (ser mãe solteira é super complexo, super admirável. É uma luta). Serve para que nenhuma mulher usando x vestimenta seja chamada de puta, vadia, sem respeito, vagabunda, vergonha social e seja culpada, linchada e responsabilizada por um estupro. Serve para que não haja piadas ridículas sobre as mulheres terem de ir escoltadas até o salão para fazer as unhas porque a Fabíola traiu. Não tem graça. A infidelidade é uma conduta de muito desrespeito dentro de um relacionamento, mas eu não tenho nada a ver com isso e nem ninguém. A mulher que trai - e isso eu já escutei - é uma sem vergonha, porque trair não é da natureza feminina. O homem que trai, dizem, só está sendo instintivo. O ser humano se diferencia dos demais animais do Reino por seu telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor. Nós não vivemos de instinto. Nós vivemos de instinto, razão e sentimento. Traição não é da natureza masculina e é errado e sem ética pra quem quer que seja que a cometa. Entretanto, não abre brecha pra respostas violentas. Serve pra que casemos (mulheres E homens) quando e se quisermos (e com quem amamos). Constituamos famílias quando e se quisermos. Trabalhemos e sejamos bem remuneradas se quisermos e, SE NÃO QUISERMOS, possamos viver uma vida doméstica digna sem pertencer e obedecer ao grande Deus-rei-Sol patriarca. E se gostarmos de obedecer ao patriarca? Então vai, minha filha, ser feliz fazendo o que você quiser. Serve pra que nenhuma mulher seja vítima de violência doméstica e fique com medo de fazer uma denúncia. Serve pra que nenhuma mulher seja ridicularizada dentro de suas casas, ruas, cidades e demais esferas sociais. Serve pra que as meninas não tenham suas vidas destruídas quando algum namorado ou ficante (insira aqui sua palavra depreciativa favorita) posta nudes da guria na internet enquanto com ele não acontece nada (talvez palmas de algumas pessoas). Serve pra que nenhum homem seja obrigado a ouvir que é "mulherzinha", "bichinha", dente outras banalizações dos grupos sociais, porque chora, porque é sensível, porque ama. "Macho que é macho manda, controla, não se mostra frágil. Macho que é macho come mulheres e mais mulheres. Macho que é macho não se apega. Só se for a 'mulher pra casar'". Isso não cabe na minha vida. Nunca coube e nunca vai caber. Não vou ensinar isso aos meus filhos e me recuso a ter um marido (sim, eu pretendo casar. Não, eu não odeio os homens. Não, eu não sou contra a família. Parem de usar essas atribuições bobas como características básicas das feministas) que assim o pense. O feminismo serve, também, pra que as minhas atribuições físicas (aliás, não as minhas, porque eu não me encaixo nos padrões) não sejam transformadas em objetivos e metas concretas pro homem bem sucedido ou para a mulher bem sucedida. Serve pra que eu não seja usada (novamente: não eu) como peça publicitária para vender mais e mais e mais coisas feitas pro público masculino (ou produtos de limpeza pro feminino - birra minha). Serve pra unir homens e mulheres em prol de uma mesma causa. Serve pra que eu siga o comportamento que eu quiser e que os homens assim o façam. Gosto de pensar que o feminismo, quando bem utilizado, liberta e protege homens e mulheres cis e héteros assim como abre MUITAS portas pra visibilidade e para as conquistas dentro do movimento LGBT - que é, também, militante anti-machismo natural -. Serve pra que a denúncia de comportamentos agressivos seja cada vez mais uma realidade acessível. Serve pra tantas e tantas coisas. Isso porque eu nem estou falando daqueles países  cuja cultura determina que uma mulher adúltera seja apedrejada em praça pública ou que a mulher tenha que andar completamente coberta pelas ruas, etc. Não me atrevo a discutir essas atribuições culturais em qualquer lugar, porque esse é um território de campo minado.

Quanto aos assuntos polêmicos:

"Ser feminista tudo bem, mas pra que fazer protesto mostrando os peitos?"
Olha, minha opinião pessoal: todo movimento de minorias (não que as mulheres sejam minoria em número, mas acho que esse tratamento é cabível) costuma buscar, em sua militância, visibilidade. Simplesmente porque a conquista de direitos exige esse pré requisito. Quando, por exemplo, em uma parada gay, que costuma ser muito colorida, espalhafatosa, exuberante, aparece algo que choca muito o público, as pessoas fazem posts agressivos criticando, falando mal, achando absurdo. Especialmente quando envolve algo que contrariou suas crenças religiosas. Cada caso é um isolado e não dá pra generalizar e dizer o que é certo e errado. Entretanto, se olharmos bem, acredito firmemente que encontraremos um protesto muito ferrenho que foi necessário para aquele grupo, naquele momento, clamar por algo entalado na garganta há tempos. Não é banal. Ninguém desrespeita o outro de graça. Alguns desrespeitos são realmente chocantes, mas isso não é razão pra nenhuma das partes disseminar violência.
A mulher que protesta sem roupa em um movimento feminista busca a atenção não pra suas atribuições físicas e não faz isso por nada. Ela faz porque quer desafiar, quer questionar, quer propor uma coisa que a sociedade ainda não consegue aceitar. Não é sem razão de ser.

"Feminista quer igualdade, mas não luta por alistamento obrigatório"
Acho esse argumento um tanto sem nexo. Eu, particularmente, não concordo com alistamento obrigatório. Acho que tira o patriotismo - que já, naturalmente, não é atributo do povo brasileiro - e a beleza de se alistar por querer e fazer a diferença dentro das forças armadas. Um rapaz que é obrigado a servir, sem querer, tendo de abrir mão de um estudo ou emprego, vivencia um quadro que eu considero injusto e ruim. Acho que a maioria também pensa assim. Por que, então, lutaríamos, nós mulheres, pra sermos igualmente submetidas? A causa é de vocês homens. Nós poderíamos apoiá-los no combate contra a obrigatoriedade, mas não vejo nenhum sentido em lutar pra sermos obrigadas só pra fugirmos da onda de "quer direitos iguais mas não os deveres" que alguns inventaram. Permitindo-me uma analogia meramente ilustrativa: digamos que os homens fossem obrigados por lei a levarem uma chicotada nas costas quando completassem 18 anos (só os rapazes, que têm mais força física - acredito que seja esse um dos argumentos pro Exército ser uma atribuição essencialmente masculina). Eu, como mulher, acho errado. Então eu poderia ajudar na luta, em prol da igualdade, pra que isso não acontecesse e não pra que eu também pudesse apanhar. E novamente: acredito que essa seja uma causa pela qual os homens devessem brigar ao invés de querer que as mulheres queiram passar por isso. Nenhuma mulher e nenhuma mulher feminista está querendo se esquivar de seus deveres. Nós trabalhamos, votamos, contribuímos pro crescimento do país dentro de todos os aspectos assim como vocês homens.

"Mulher nenhuma reclama de pagar menos na balada"
Sabe que eu acho isso tão bobinho?! Uma vez, no carro com meu pai, escutei uma propagando no rádio de uma promoção de evento em que as mulheres pagariam menos até meia noite. Perguntei, então, o porquê disso. Disse meu progenitor amado: bom, a mulher pagando menos é atraída pro evento com maior facilidade. Estando o local cheio de mulheres, os homens, então, são atraídos também e o dono do evento obtém mais lucro. Achei plenamente plausível. Permitem-me dizer que é um uso comercial da figura feminina? Espero que sim. Fiquei, naquele momento, imaginando o quão esquisita eu ficaria pendurada na ponta de um anzol.

"O movimento feminista está propagando ódio e misandria"
Não. Não está. Alguns segmentos do movimento feminista - assim como alguns segmentos de muitos movimentos sociais da História - acaba se desprendendo e levando seus gritos pra um patamar que pode beirar o extremismo. Eu NÃO descarto essa possibilidade. Entendam, entretanto, que são exceções. O movimento feminista fala de igualdade, de união, de fraternidade, de visibilidade. Não fala de repúdio ao universo masculino, de morte aos homens, de "cortar o pênis dos homens" - já ouvi essa também -. SPOILER A SEGUIR: Há mais de dois anos, fui apresentada à trilogia literária "Millennium". O primeiro livro é chamado "Os homens que não amavam as mulheres". Quando o vi, achei que trataria de alguma espécie de história sobre misoginia e coisas do tipo. Não é exatamente, mas pode-se achar traços por parte de um certo personagem da trama. A protagonista, uma figura muito intrigante, teve muitos problemas com homens na sua vida. Seu pai espancava e tentou matar sua mãe. Ela jogou um coquetel molotov nele. Seu tutor número II abusava dela e (e de outras meninas): a estuprou e filmou o estupro e a subornava em troca de sexo. Ela passou a chantageá-lo e tatuou "sou um porco sádico, um canalha estuprador" em sua barriga. O psiquiatra que a tratara na infância a deixou presa em uma cama por 381 dias e a declarara inválida socialmente, paranóica e esquizofrênica pra proteger um segredo de Estado. Ela destruiu sua credibilidade em um tribunal. Ela era uma hacker mestra das tecnologias. A garota coordenava com maestria (e um pouco de doideira) cada um de seus passos sozinha desde criança. Teve de ser assim. Teve de se virar. Ela simplesmente não confiava nas pessoas. Não tinha razão pra tanto. O governo sueco vacilou muito com ela. Só que ela não odiava homem nenhum de graça. Ela odiava aqueles homens que odiavam as mulheres. Ela respondia na mesma moeda. Se o comportamento dela é socialmente aceito? Não. Se é correto? Cabe interpretações, mas, numa leitura jurídica, claro que não. Misandria? Não. O ódio não vem de graça. Ela não odiou qualquer um. Odiou quem ferrou com sua vida ou com parte dela. O mesmo acontece com mulheres reais. Não é fácil odiar algo ou alguém. A misoginia como a misandria são coisas extremas. Elas não podem nunca ser tomadas como um padrão. Há muito machismo no mundo, mas qualquer pessoa machista vai ser misógina? Não. Do mesmo modo, nem toda feminista vai ser misândrica. A maioria não vai ser.

Pra fechar esse capítulo de livro, gostaria de comentar uma conversa recente que tive com um amigo muito interessado em política, economia, Direito e assuntos sociais. A visão dele de feminismo difere da minha. Ele não vê o movimento exatamente com bons olhos, mas concordamos num ponto fundamental: a igualdade entre os gêneros, em uma visão macro, é conquistada com boas políticas governamentais, boa gestão, bons programas sociais (resumindo: menos utopia e mais práticas) e acrescento: abertura da sociedade, educação, reconhecimento do problema. (Nota dentro da nota: falar do nosso governo geraria outro texto enorme - para o qual eu consultaria muitas fontes mais abastadas de saber que eu -, mas, procurando correlacioná-lo com o assunto da vez, gostaria de deixar minha sincera tristeza e insatisfação com algumas figuras aclamadas dentro do nosso poder legislativo que demonstram, em suas propostas e em seus dizeres, uma visão de depreciação da mulher e de delimitação do seu papel social como os velhos esteriótipos). Não que tudo isso seja fácil, mas a humanidade, muito embora tenha decepcionado tantas e tantas vezes, é capaz de renascer, com o tempo, diferente, melhorada, mais justa.

Obrigada pela atenção.

2 comentários:

  1. Que texto!!! Parabéns pelo excelente trabalho!!! Você é uma mocinha brilhante e admirável!!! Me enche de orgulho!!!

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  2. Que texto!!! Parabéns pelo excelente trabalho!!! Você é uma mocinha brilhante e admirável!!! Me enche de orgulho!!!

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